Jornalismo econômico para a inovação no Nordeste -
Jornalismo econômico para a inovação no Nordeste -
5 de junho de 2026 10:30

Ceará desafia clima para tentar produzir o primeiro pistache brasileiro

Ceará desafia clima para tentar produzir o primeiro pistache brasileiro

Impulsionado em sorveterias gourmet, o ingrediente conquistou a confeitaria de alto padrão e consolidou-se como um petisco de luxo
Foto: Unplash

Nos últimos anos, o consumo de pistache no Brasil vive um crescimento que ultrapassou o boom inicial de sucesso de qualquer produto “da moda”. O pistache vem se estabelecendo como uma semente de desejo do consumidor. Impulsionado em sorveterias gourmet, o ingrediente conquistou a confeitaria de alto padrão e consolidou-se como um petisco de luxo.

Dados mostram que em 2024, o país comprou mais de mil toneladas da oleaginosa, um salto expressivo frente às 350 toneladas registradas em 2022, de acordo com Jorge Ferreira dos Santos Filho, economista e professor do curso de Administração da ESPM. O volume de compras externas continuou superando a marca de mil toneladas em 2025, segundo o professor, mesmo sem os dados estarem fechados ainda. Contudo, o desejo de transformar o estado do Ceará em um polo produtor para reduzir essa dependência de 100% do mercado externo enfrenta uma dura realidade de entraves agronômicos e regulatórios.

A expectativa do mercado ganhou força após debates sobre um projeto experimental na Serra da Ibiapaba. No entanto, a Embrapa esclarece que, na realidade, não existem pesquisas na região, uma vez que nenhuma parceria foi formalizada com os produtores locais.

Especialista em comércio exterior, Jorge reforça esse ponto. “A gente não está falando ainda de uma cadeia produtiva.” Para o professor, fazer análise de impacto econômico, financeiro e reconfiguração regional, demandaria que a cadeia produtiva já estivesse estabelecida para se ter números precisos. Segundo o especialista, a previsão para o início de um cultivo com variedades adaptadas seria apenas para 2027.

Para a Embrapa, um dos maiores desafios para cultivo é a própria natureza da planta. A adaptação ao clima tropical é um dos maiores obstáculos a serem enfrentados na tentativa de introduzir o cultivo de pistache no Brasil.

O pistacheiro pertence à família Anacardiaceae (a mesma do cajueiro), mas possui exigências climáticas opostas. Originário da antiga Pérsia (atual Irã), o pistache necessita de invernos rigorosos, exigindo entre 60 e 90 dias com temperaturas abaixo de 10°C.

Na Serra da Ibiapaba, as madrugadas registram cerca de 15°C. O professor Jorge alerta que essa variação de temperatura não é um detalhe técnico. “É o que separa, por exemplo, um pomar produtivo de uma árvore que vegeta com pouca produção. E isso não dá escala.”

Além do clima, o investimento inicial tende a ser pesado devido ao custo elevado das mudas importadas, além da irrigação obrigatória e da ausência de mão de obra com curva de aprendizado. Para iniciar os testes, o Brasil ainda depende da liberação do Ministério da Agricultura e Pecuarária (Mapa) para importar material genético. O processo deve envolver instituições como a Embrapa ou o Instituto Agronômico de Campinas (IAC), que fazem a introdução de germoplasma no Brasil. Após a liberação do Mapa, existe a quarentena, necessária para garantir a segurança fitossanitária. Somente após o período de quarentena, pode-se iniciar o plantio das primeiras mudas.

Foto: Unplash

Na avaliação do professor, competir em preço com os gigantes globais está fora de cogitação. Na Califórnia, a produção opera em escala industrial e eficiente, saltando de 100 mil para 600 mil acres em 20 anos. Em 2025, o preço médio na fazenda americana foi de US$ 4,60 por quilo, valor com o qual o cearense teria que rivalizar descontando fretes e tributos.

O especialista aponta ainda que a estratégia viável é o oposto das commodities tradicionais brasileiras. “O caminho viável é o oposto da estratégia de combate que a gente está acostumado, por exemplo, com milho, soja, cana-de-açúcar. Seria realmente um posicionamento premium. Como a narrativa de origem. Assim como o avocado mineiro e a pitaya paulista, dois produtos que acharam nicho premium no Brasil e tem os resultados relativamente razoáveis por hectare.”

A vantagem competitiva cearense, na visão do especialista, é a logística e independe dos portos locais. Enquanto o produto da Califórnia chega ao Brasil sobrecarregado por frete internacional, custos alfandegários e uma carga tributária que passa dos 20% na cadeia, o produtor do Ceará pagará apenas o frete rodoviário interno até o principal centro consumidor no Sul e Sudeste. Portos como o de Pecém só farão diferença em um horizonte de 10 anos (2030 a 2035), caso a produção ganhe escala para exportar para a Europa aproveitando a infraestrutura de cold chain já consolidada no estado. Até lá, a demanda interna da indústria gourmet segue reprimida, aguardando uma oferta produtiva confiável.

👆

Assine a newsletter
do Investindo por aí!

 

Gostou desse artigo? compartilhe!

Últimas

Foto Unsplash - brenan-greene-A5um05uycVc-unsplash
DCIM285MEDIADJI_0107
Capacitação setor têxtil
saneamento e urbanização (2)
Desenvolvimento regional
grãos
compras (3)
previdência
Barragem do Redondo
semiárido

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

div#pf-content img.pf-large-image.pf-primary-img.flex-width.pf-size-full.mediumImage{ display:none !important; }