
O município de Jaguaretama, no Vale do Jaguaribe, receberá até o fim do primeiro semestre a primeira biofábrica industrial do Brasil voltada ao processamento de água de coco em pó e compostos lácteos. A unidade, desenvolvida a partir de pesquisas da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e operada pela ACP Nutrition, terá capacidade para processar diariamente cerca de 2 mil litros de matéria-prima.
O carro-chefe da fábrica será o ACP Lacte, composto nutricional obtido da combinação de água de coco em pó e leite de cabra. A água de coco em pó é produzida pelo processo de desidratação à vácuo do líquido endospérmico do coco, tecnologia desenvolvida nos laboratórios da Faculdade de Veterinária da Uece ao longo de quatro décadas. O produto concentra, em 100 gramas, 388 kcal, 76 g de carboidratos, 12 g de proteínas, 24 g de fibras alimentares, 5.170 mg de potássio e 492 mg de cálcio, sem gorduras trans e sem colesterol, segundo análises do Instituto de Tecnologia de Alimentos (ITAL) e do Centro de Qualidade em Alimentos (CQA), laboratórios referência da Anvisa.
O ACP Lacte foi concebido para atender populações em situação de vulnerabilidade nutricional, como crianças, idosos e pacientes hospitalizados, com foco no combate à fome proteica. A tecnologia é objeto de patente depositada em 2019 pelo grupo de pesquisa da Uece. As perspectivas de uso incluem ainda dieta líquida hospitalar, protocolo de jejum pré-operatório, merenda escolar e repositor hidroeletrolítico para atletas.
A implantação da biofábrica reúne parcerias com o Instituto Ecoco do Brasil, a Associação dos Caprinovinocultores de Jaguaretama (Capritama) e a Cooperativa Agroindustrial do Vale do Jaguaribe (Cooprivale). A escolha do município reflete sua tradição na caprinocultura, garantindo proximidade com a matéria-prima e integração com a agricultura familiar da região.
A trajetória da tecnologia começou em 1985, quando o professor emérito José Ferreira Nunes, da Favet/Uece, iniciou estudos com água de coco in natura para conservação de sêmen caprino e ovino. Em 1994, foi depositada a primeira patente biológica do Brasil na área. A primeira água de coco em pó foi produzida em 2002. O grupo acumula mais de 40 anos de pesquisa, 12 patentes registradas no INPI e aplicações que vão de cosméticos a conservação de órgãos para transplantes e cultivo de células-tronco.
Além do uso nutricional, estudos clínicos apontam resultados da linha ACP Derma no tratamento de feridas crônicas, incluindo casos de pé diabético, com redução do tempo de cicatrização. O desenvolvimento tecnológico passou pela Incubadora de Empresas da Uece, fortalecendo a conexão entre ciência, empreendedorismo e desenvolvimento regional.