
A busca por alternativas para enfrentar a escassez hídrica no Semiárido brasileiro tem levado pesquisadores a desenvolver tecnologias capazes de tornar a agricultura mais resiliente às mudanças climáticas. Na cajucultura, uma das atividades mais importantes para a economia regional, estudos conduzidos pela Embrapa Agroindústria Tropical, no Ceará, indicam que o uso de hidrogel e biochar pode aumentar a eficiência no uso da água, reduzir perdas e melhorar a qualidade da produção.
Os resultados são especialmente relevantes para a fase de implantação dos pomares de cajueiro-anão, considerada um dos momentos mais críticos da atividade. Embora o cajueiro seja reconhecido pela tolerância à seca, a disponibilidade de água continua sendo um fator decisivo para o desenvolvimento das plantas, sobretudo em solos arenosos, predominantes nas regiões produtoras do Nordeste.
Em um dos experimentos, os pesquisadores avaliaram o uso de hidrogel — um polímero capaz de absorver e armazenar grandes volumes de água — associado à chamada irrigação de salvação, técnica utilizada em períodos de estiagem severa. Os resultados mostraram que todas as mudas do clone BRS 226 sobreviveram ao primeiro ano de cultivo, com uma redução de 46% nos custos de irrigação.
A dose considerada ideal foi de 29,56 gramas por cova. Nessa condição, cada planta precisou de apenas 55 litros de água ao longo de um ano para manter 100% de sobrevivência. Segundo o pesquisador Rubens Sonsol, responsável pelos estudos, a tecnologia pode ajudar a superar um dos principais gargalos da atividade: a elevada mortalidade de mudas após o transplante do viveiro para o campo.
Outra linha de pesquisa avaliou o potencial do biochar, também conhecido como biocarvão, produzido a partir da carbonização de resíduos vegetais em ambiente com pouco oxigênio. O material pode ser fabricado na própria propriedade rural utilizando restos de poda dos cajueiros, o que reduz custos e amplia sua viabilidade para pequenos produtores.
Em condições extremas de seca, a aplicação de quatro quilos de biochar por cova elevou a taxa de sobrevivência das mudas de 26% para 68%. Já em plantas adultas irrigadas, os benefícios foram além da retenção de água. No clone BRS 226, houve aumento significativo do tamanho dos pedúnculos — a chamada maçã do caju —, além de melhoria no sabor, com frutos mais doces e menos ácidos.
Os resultados reforçam o potencial dessas tecnologias como ferramentas de adaptação climática, capazes de aumentar a produtividade e a sustentabilidade da cajucultura em uma das regiões mais vulneráveis à escassez de água no Brasil.