
Enquanto amplia projetos de infraestrutura e avança com concessões em áreas estratégicas, o Piauí também passou a investir na formação internacional de seus quadros técnicos. Em abril, a Agência Reguladora dos Serviços Públicos Delegados do Estado do Piauí, a Agrespi, participou em Londres do programa internacional “Tendências Contemporâneas em Parcerias Público-Privadas”, voltado à capacitação de gestores públicos em governança, financiamento e inovação em PPPs.
A participação da diretora-geral da Agrespi, Thaís Araripe, acontece em um momento em que o estado tenta consolidar uma política robusta de concessões e parcerias público-privadas como eixo de expansão econômica e modernização de serviços. Nos últimos anos, o governo de Rafael Fonteles transformou as PPPs em uma das principais ferramentas para ampliar investimentos em infraestrutura sem elevar a pressão sobre as contas públicas.
O principal símbolo desse movimento é a concessão da Microrregião de Água e Esgoto do Piauí, a MRAE, considerada atualmente a maior concessão de saneamento do Norte e Nordeste, com previsão de cerca de R$ 9 bilhões em investimentos. O contrato prevê ampliação da cobertura de água tratada e esgotamento sanitário, modernização de redes antigas e expansão gradual do serviço para dezenas de municípios piauienses, incluindo cidades médias do interior onde a infraestrutura ainda apresenta gargalos históricos.
Mas a política de PPPs do estado não se restringe ao saneamento. O governo também vem estruturando projetos em rodovias, turismo, energia, mobilidade e equipamentos urbanos. Um dos casos mais emblemáticos é a Rodovia Transcerrados, corredor logístico fundamental para o escoamento da produção agrícola do sul do estado, especialmente da região do Matopiba. A estrada reduziu o tempo de deslocamento entre áreas produtoras e centros logísticos, além de melhorar o acesso a polos de armazenamento e exportação de grãos.
Na área do turismo, o estado aposta em concessões ligadas ao litoral e à infraestrutura de serviços, especialmente em municípios como Luís Correia e Parnaíba. O objetivo é ampliar a capacidade de atração turística do litoral piauiense, combinando urbanização, requalificação de equipamentos públicos e estímulo à rede hoteleira e gastronômica.

A própria política de inserção internacional do governo estadual ajuda a explicar esse movimento. Missões empresariais e agendas técnicas conduzidas pela Investe Piauí passaram a integrar a estratégia de posicionamento econômico do estado no exterior, conectando o Piauí a fundos de investimento, empresas e organismos internacionais interessados em projetos de infraestrutura e transição energética.
Segundo Thaís Araripe, a participação da Agrespi no programa em Londres buscou justamente ampliar a capacidade técnica do estado diante da nova escala dos projetos em andamento. “Participar de um programa como esse amplia nossa visão sobre como diferentes países estruturam e executam parcerias público-privadas. Isso nos permite trazer referências importantes para o Piauí, fortalecer a capacidade técnica da Agência e contribuir para a construção de soluções cada vez mais eficientes e sustentáveis para a população”, afirmou.
A formação foi promovida pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo em parceria com a University College London e contou com apoio da Caixa Econômica Federal. O programa reuniu gestores públicos brasileiros para discutir modelos internacionais de PPPs, financiamento de infraestrutura, regulação e gestão de riscos.
Para o economista e especialista em desenvolvimento regional Ricardo Coimbra, o avanço das PPPs no Nordeste reflete uma mudança importante na forma como os estados vêm lidando com seus limites fiscais e demandas históricas de infraestrutura. “Durante muito tempo, obras de saneamento, logística e mobilidade ficaram represadas por falta de capacidade de investimento dos estados. As PPPs surgem como alternativa para acelerar projetos estratégicos, sobretudo em regiões onde os gargalos ainda limitam o crescimento econômico”, afirma.
Segundo ele, o modelo ganhou força especialmente em estados nordestinos que passaram a combinar planejamento técnico, segurança regulatória e atração de capital privado. “Quando há capacidade de coordenação do poder público e projetos bem estruturados, as PPPs conseguem gerar efeitos concretos sobre competitividade, circulação de mercadorias, turismo e qualidade dos serviços urbanos”, avalia.
Para especialistas, esse cenário ajuda a explicar por que áreas historicamente marcadas por problemas de infraestrutura, especialmente no interior nordestino, passaram a concentrar parte importante dos novos projetos de concessão do país.