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2 de junho de 2026 10:54

A crise da previdência potiguar e a postura dos candidatos ao governo do estado

A crise da previdência potiguar e a postura dos candidatos ao governo do estado

O rombo bilionário desafia os planos de Allyson Bezerra e Álvaro Dias para a gestão estadual
Foto: Unplash

Com déficit previdenciário superior a R$ 2 bilhões registrado em 2025, o sistema de aposentadorias e pensões do Rio Grande do Norte tende a ocupar posição estratégica na disputa pelo Governo do Estado em 2026. O tema atravessa os discursos iniciais de Allyson Bezerra e Álvaro Dias, ambos associados à defesa de responsabilidade fiscal, eficiência administrativa e reorganização das contas públicas. Mesmo assim, o debate ainda caminha em terreno genérico quando o assunto envolve medidas concretas para enfrentar um dos principais gargalos financeiros do Estado.

O déficit previdenciário se consolidou como uma das grandes pressões sobre o orçamento estadual. Atualmente, parte significativa da arrecadação do Rio Grande do Norte é direcionada para cobrir aposentadorias e pensões, cenário que reduz a capacidade de investimento em áreas estratégicas como infraestrutura, saúde, educação e segurança pública. Economistas e especialistas em gestão fiscal avaliam que a trajetória de crescimento dessas despesas tende a aprofundar o estrangulamento financeiro ao longo dos próximos anos caso medidas estruturais deixem de avançar.

Histórico do rombo

A análise dos balanços oficiais do Instituto de Previdência dos Servidores Estaduais e as manifestações do Tribunal de Contas do Estado traçam um panorama severo sobre a evolução do desequilíbrio fiscal ao longo dos anos. Em uma década, o descompasso anual registrou saltos contínuos.

  • Ano de 2014 O déficit anual situava-se em R$ 543 milhões.
  • Ano de 2018 A insuficiência financeira subiu para R$ 1,35 bilhão.
  • Ano de 2020 O Tesouro Estadual precisou aportar R$ 1,75 bilhão para garantir os pagamentos.
  • Ano de 2024 O saldo negativo anual atingiu a marca de R$ 1,83 bilhão.
  • Ano de 2025 O descompasso superou o patamar de R$ 2 bilhões, resultado de uma arrecadação de R$ 3,537 bilhões para uma despesa total de R$ 5,559 bilhões.

Além do rombo imediato de caixa, o Tribunal de Contas apontou no segundo semestre de 2025 que o déficit atuarial (cálculo técnico que projeta a diferença real entre todas as obrigações futuras com os servidores e os fundos disponíveis de longo prazo) atingiu impressionantes R$ 54,3 bilhões. O cenário levou a Corte de contas a determinar restrições urgentes ao uso de rendimentos de fundos de investimento para despesas correntes, evidenciando a urgência de reformas na previdência estadual.

Embora o problema seja amplamente reconhecido, o tema ainda aparece de forma periférica no centro da disputa política. O paradoxo se fortalece justamente porque os dois principais nomes colocados na corrida eleitoral sustentam discursos ligados à austeridade e reorganização administrativa, embora sem detalhamento aprofundado sobre como enfrentar o desequilíbrio previdenciário em um estado cuja margem fiscal já opera sob forte pressão.

Narrativa de Allyson Bezerra

Foto: Reprodução/Internet

Allyson Bezerra tenta construir sua postulação ancorado em uma narrativa de eficiência administrativa associada à experiência acumulada em Mossoró. O projeto 167 Razões simboliza esse movimento de interiorização política e aproximação regional, estruturado a partir de visitas aos municípios potiguares e da defesa de um governo itinerante. A proposta aposta em descentralização administrativa, fortalecimento do diálogo com prefeitos e leitura regionalizada das demandas locais.

Ao abordar a crise fiscal estadual, Allyson sustenta que o Rio Grande do Norte precisa ser passado a limpo, defendendo reorganização administrativa, revisão técnica da folha de pagamento e profissionalização da gestão pública. O candidato também associa o peso da Previdência à baixa capacidade de investimento do Estado, argumentando que o comprometimento da receita impede avanços expressivos em políticas públicas.

A experiência de Mossoró aparece como principal vitrine política do antigo prefeito. Allyson afirma ter assumido o município com déficit previdenciário superior a R$ 200 milhões e atribui à gestão técnica a reversão do cenário fiscal do instituto municipal. A narrativa reforça a ideia de que equilíbrio atuarial pode ser alcançado através de reorganização administrativa, cálculos atuariais e controle dos repasses previdenciários.

Recentemente em declarações sobre sua trajetória ele relembrou sua experiência municipal com a frase “quando assumi a prefeitura de Mossoró tinha-se salários atrasados, décimo terceiro em atraso, previdência devendo R$ 233 milhões”. Ele complementou que conseguiu reverter a situação financeira local e destacou que hoje “o dinheiro que entra da previdência por mês é maior daquele que paga aposentado e pensionistas, ou seja, todo mês tem superávit”. Com essa fala o pré-candidato reforça a ideia de que o equilíbrio atuarial pode ser alcançado por meio de planejamento e controle dos repasses.

Mesmo assim, o discurso ainda preserva lacunas relevantes sobre quais medidas concretas seriam implementadas em escala estadual. O debate sobre aumento de alíquotas, revisão de regras previdenciárias, mudanças na estrutura de carreiras ou ampliação da contribuição patronal segue distante das falas públicas do período atual. A cautela acompanha um tema historicamente associado a desgaste político e resistência corporativa.

Defesa de Álvaro Dias

Foto: Reprodução/Internet

Já Álvaro Dias mantém uma linha política historicamente vinculada à redução de despesas públicas, enxugamento administrativo e contenção de privilégios. Durante sua trajetória nacional e recentemente no debate potiguar, o antigo prefeito de Natal reforçou posições favoráveis à reforma previdenciária, ajuste fiscal e diminuição do tamanho da máquina pública.

O discurso de Álvaro se ancora na defesa de reformas estruturais e controle rigoroso dos gastos. Em diferentes momentos de sua atuação política, o candidato sustentou que o crescimento das despesas previdenciárias reduz a capacidade de investimento do Estado e compromete serviços essenciais. A defesa de reformas administrativas, redução de cargos comissionados e racionalização da estrutura estatal segue presente em suas falas públicas.

A experiência administrativa em Natal também integra sua narrativa eleitoral. O antigo prefeito destaca obras de infraestrutura, projetos urbanos e investimentos em saúde realizados durante a gestão municipal. Ao detalhar sua atuação voltada ao equilíbrio das contas em Natal ele ressaltou sua postura de austeridade com a declaração de que a gestão municipal conseguiu avanços importantes afirmando que “centralizamos as licitações e economizamos R$ 150 milhões entre o que havia sido orçado e o que foi efetivamente contratado”.

Ao mesmo tempo, levantamentos do portal G1 apontaram percentual reduzido de cumprimento integral das promessas de campanha feitas em 2020, fator que tende a alimentar questionamentos sobre capacidade de execução e viabilidade de parte das propostas apresentadas para o Estado. Assim como ocorre com Allyson, a discussão previdenciária nas articulações de Álvaro permanece concentrada em diretrizes amplas ligadas à contenção de gastos e reorganização administrativa. O detalhamento técnico sobre mecanismos capazes de reduzir o déficit estrutural ainda aparece em segundo plano.

Assim como ocorre com Allyson, a discussão previdenciária nas articulações de Álvaro permanece concentrada em diretrizes amplas ligadas à contenção de gastos e reorganização administrativa. O detalhamento técnico sobre mecanismos capazes de reduzir o déficit estrutural ainda aparece em segundo plano.

Desafio programático

O cenário evidencia um ponto central da eleição potiguar. Existe consenso em torno do diagnóstico fiscal, embora o debate político evite aprofundar os custos sociais e administrativos necessários para reverter a trajetória do sistema previdenciário estadual. Qualquer proposta profunda inevitavelmente atravessa temas de elevado desgaste político, como mudanças em regras de aposentadoria, revisão de benefícios, aumento de contribuições ou reestruturação de carreiras do funcionalismo.

O impacto do desequilíbrio previdenciário ultrapassa os limites da contabilidade pública. O crescimento contínuo da necessidade de cobertura do déficit reduz espaço para investimentos, amplia a dependência de operações de crédito e limita a capacidade de expansão de políticas públicas. Em paralelo, servidores ativos e aposentados acompanham o debate sob preocupação permanente diante da sustentabilidade futura do sistema.

Especialistas em contas públicas avaliam que o próximo governo herdará um cenário de baixa margem fiscal e necessidade crescente de reorganização estrutural. Dentro desse contexto, o silêncio parcial em torno das soluções concretas ajuda a preservar capital político durante este período, embora também revele a dificuldade histórica de transformar diagnósticos técnicos em propostas eleitoralmente viáveis.

Longe de ser um tema secundário da corrida estadual, o déficit previdenciário dita a relevância e serve como termômetro da capacidade de formulação programática dos candidatos. A eleição de 2026 poderá revelar qual projeto político conseguirá converter discurso de responsabilidade fiscal em medidas capazes de enfrentar um problema que há anos limita a capacidade de desenvolvimento do Rio Grande do Norte.

 

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