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15 de outubro de 2026 15:14

Canetas emagrecedoras começam a redesenhar o mercado de alimentação nordestino

Canetas emagrecedoras começam a redesenhar o mercado de alimentação nordestino

Avanço dos medicamentos à base de GLP-1 muda hábitos de consumo e leva bares, restaurantes e outros negócios a adaptar porções, cardápios e ofertas
Foto: Reprodução/Internet

As compras online de medicamentos associados ao GLP-1 cresceram 195,2% no Nordeste no primeiro semestre de 2026, o maior avanço percentual entre as regiões brasileiras. O crescimento das chamadas canetas emagrecedoras começa a ultrapassar o mercado farmacêutico e chegar à mesa dos consumidores, alterando o tamanho das porções, a composição das refeições e a procura por bebidas e outros produtos.

Bares e restaurantes já identificam clientes comendo menos, compartilhando pratos e priorizando proteínas e opções mais leves, enquanto supermercados e fabricantes de alimentos acompanham a mudança para entender quais categorias podem ganhar ou perder espaço nesse novo comportamento alimentar.

José Eduardo Camargo, líder de Conteúdo e Inteligência da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), afirma que o avanço dos medicamentos para emagrecimento já começa a produzir mudanças perceptíveis no comportamento dos consumidores de bares e restaurantes. Segundo pesquisa realizada pela entidade em abril de 2026, 61% dos empresários ouvidos já identificam alterações associadas ao uso de medicamentos como Ozempic e Mounjaro, embora a maioria avalie que os efeitos ainda sejam leves ou moderados.

“Mais de 70% dos empresários percebem uma maior preferência por opções mais leves, enquanto 64% registram aumento nos pedidos de miniporções e o mesmo percentual observa mais clientes compartilhando pratos. Nas bebidas, 53% apontam crescimento na procura por opções sem álcool. O cliente continua frequentando bares e restaurantes, mas está fazendo escolhas mais moderadas e, diante disso, os estabelecimentos também começam a adaptar sua oferta”, ressalta.

Camargo destaca que a mudança de comportamento já se reflete na forma como os restaurantes estruturam seus cardápios e formatos de venda. Entre as estratégias adotadas estão a criação de versões menores de pratos tradicionais, opções para compartilhar, pratos com menos calorias e proteínas magras, além da ampliação da oferta de drinques sem álcool. Para ele, o uso dos dados de vendas permite aos estabelecimentos ajustar a oferta às novas preferências sem necessariamente comprometer as margens, ao mesmo tempo em que abre espaço para conquistar novos perfis de consumidores.

Marcus Batalha, presidente da Abrasel em Alagoas, afirma que os estabelecimentos do estado já percebem mudanças no comportamento dos consumidores associadas ao uso das chamadas canetas emagrecedoras. Segundo ele, clientes têm reduzido a quantidade de comida consumida, cortado itens como entradas e sobremesas e diminuído o consumo de bebidas alcoólicas.

“Já estamos sentindo esses efeitos nos bares e restaurantes de Alagoas. Alguns clientes estão pedindo porções menores, deixando de consumir uma entrada ou sobremesa e reduzindo também o consumo de bebidas alcoólicas. Ao mesmo tempo, percebemos um aumento na procura por proteínas e outras opções de alimentação, além de uma adaptação no tamanho das porções. Há estabelecimentos, inclusive, em que pratos que antes eram consumidos individualmente passaram a ser divididos entre duas ou três pessoas. O mercado está buscando se adequar a essa nova realidade de consumo”, esclarece.

Presidente da entidade em Pernambuco, Tony Souza complementa: “nas bebidas, a Abrasel registrou crescimento nas opções não alcoólicas. Como dono de restaurante, também noto a procura por alternativas sem açúcar”. Para o empresário, o caminho são ajustes pontuais e flexibilidade. “A pessoa continua querendo estar à mesa; cabe ao restaurante acompanhar o que ela está buscando. Até por conta disso, nos cursos e treinamentos que proporcionamos aos associados, sempre estamos preocupados em abordar esse tema”.

A chefe de cozinha inclusiva Luana Malta, que atua há 13 anos em Maceió com refeições adaptadas a diferentes necessidades alimentares, percebe mudanças no comportamento dos clientes associadas ao uso das chamadas canetas emagrecedoras. Segundo ela, a busca por refeições mais leves e equilibradas começa a influenciar também a contratação de serviços gastronômicos personalizados.

“Recentemente, fui contratada para preparar um jantar para cerca de 20 casais, e todos estavam usando Mounjaro. O pedido foi justamente para que a experiência fosse diferente de um jantar tradicional: eles queriam uma alimentação mais limpa e saudável, mas sem abrir mão de pratos gourmet e de qualidade, adaptados à realidade de quem está comendo menos. Acredito que essa busca pelo meu serviço veio justamente dessa nova demanda”, destaca.

Apesar de identificar esse novo perfil de consumidor, Luana afirma que ainda não percebeu impacto significativo no volume geral de vendas ou no ticket médio de seu negócio. Para ela, o principal efeito até o momento foi a prospecção de novos clientes que procuram uma gastronomia capaz de conciliar sabor, apresentação e uma alimentação mais adequada às mudanças provocadas pelo uso desses medicamentos.

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