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15 de outubro de 2026 15:14

Do fio à grife: Ceará quer trocar o rótulo de fábrica pelo de criador na moda

Do fio à grife: Ceará quer trocar o rótulo de fábrica pelo de criador na moda

Com cadeia têxtil verticalizada e mais de 26 mil CNPJs do setor só em Fortaleza, Estado aposta em inovação, sustentabilidade e no congresso internacional da Abit para agregar valor; desafio é construir marcas próprias e comunicar sua criatividade
Foto: Reprodução/Internet

O Ceará já sabe produzir moda em grande escala, mas a questão agora é se consegue ser reconhecido também por criá-la. Com uma cadeia que reúne fiação, tecelagem, lavanderia industrial, confecção, acessórios e comércio atacadista em um mesmo território, o Estado tenta deixar a posição de grande polo produtor para disputar espaço como centro de inovação, marcas e negócios com alcance internacional. O teste mais imediato vem nos dias 14 e 15 de outubro, quando Fortaleza sedia o 11º Congresso Internacional Brasil da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), simultaneamente à 41ª IAF World Fashion Convention e à Conferência Anual da ITMF.

Os números dão a dimensão da base. Segundo o Observatório da Indústria, o Ceará tem 2.145 empresas formalizadas no setor da moda, que geram mais de 37 mil empregos, o que coloca o segmento na 4ª posição entre os que mais empregam no Estado. Só em Fortaleza, levantamento da Secretaria Municipal do Desenvolvimento Econômico, com base em dados da Receita Federal, aponta 26.618 CNPJs ativos ligados à cadeia da moda.

“O Ceará tem algo que poucos polos do país conseguem reunir num mesmo território”, afirma Paulo Rabelo, diretor de inovação da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (FIEC) e presidente do Sindicato das Indústrias de Confecções de Roupas de Homem e Vestuário no Estado (Sindroupas-CE). Segundo ele, a proximidade entre os elos encurta o ciclo entre desenvolvimento e entrega, reduz o custo logístico e permite lançar coleções com uma velocidade que polos fragmentados não alcançam. “No jeans isso é ainda mais evidente: temos o tecido, a lavanderia e a confecção dentro do mesmo raio.” De acordo com Rabelo, São Paulo, Santa Catarina e Ceará respondem juntos por 71% da produção nacional do setor.

O desafio, resume o dirigente, é outro: “Nossa tarefa agora é transformar essa escala em valor agregado”.

Jeans como carro-chefe

O denim é a principal aposta. O Estado conta com tecelagens de referência, lavanderias com tecnologia sustentável e um território produtivo organizado, o Cinturão do Jeans, no Maciço de Baturité, que reúne Acarape, Aracoiaba, Barreira, Baturité e Ocara. Rabelo também cita moda íntima, moda praia e fitness, segmentos com marcas cearenses reconhecidas nacionalmente. Um estudo do Centro Internacional de Negócios da FIEC aponta a moda íntima como um dos segmentos mais promissores para a internacionalização.

Mas a mudança de patamar esbarra em um traço histórico da indústria local: o modelo de produzir para terceiros. “O maior desafio é cultural antes de ser tecnológico”, diz Rabelo. Segundo ele, a produção para outras marcas gerou excelência fabril, mas pouca musculatura em pesquisa de consumidor, branding, design autoral e canais de venda. Não por acaso, o programa Moda Avante, parceria do IEL Ceará com Sebrae, Adece e Sindroupas, começou por um workshop de branding e inovação. “Empresa que não sabe o que a sua marca representa vai para onde a onda levar.”

Ele lista ainda obstáculos estruturais: crédito para desenvolvimento de produto, retenção de talentos criativos, a distância dos grandes centros consumidores do Sudeste, o custo de máquinas de ponta para micro e pequenas empresas e a concorrência de importados que entram com carga tributária menor, alvo de atuação do Sindroupas contra a isenção nas compras internacionais de pequeno valor.

Tecnologia e rastreabilidade

Na produção, a modernização avança “de forma desigual, mas consistente”. Nas lavanderias, laser e ozônio já substituem processos químicos e manuais, com redução no consumo de água; na modelagem, a digitalização encurta o desenvolvimento; e, na gestão, começam a surgir ERPs próprios e assistentes com inteligência artificial. “O ganho não é só produtividade: é capacidade de resposta”, afirma Rabelo, ao citar a possibilidade de produzir lotes menores e reduzir estoque parado.

A sustentabilidade é apontada como talvez a maior oportunidade de diferenciação. O mercado europeu deve exigir cada vez mais comprovação de origem, consumo de água e emissões, tema que estará em debate no congresso. O Ceará já tem empresas com certificação ABVTEX e com o selo ESG da FIEC, além de tecidos com QR code que contam a história da peça. “Quem chegar preparado sai na frente”, diz o dirigente. O passo seguinte, segundo ele, é levar rastreabilidade e indicadores ESG às pequenas confecções do interior.

A presença internacional ainda é modesta. O Estado aparece em 7º lugar entre os que mais exportam produtos têxteis e de confecção para a Europa, com cerca de US$ 1,66 milhão. “É um começo, mas ainda pequeno diante do nosso tamanho”, reconhece Rabelo, que defende preparar as empresas, construir uma marca-território, um “Ceará da moda” reconhecível no exterior, e ocupar vitrines internacionais.

Valor simbólico

Para Andreia Meneguete, coordenadora acadêmica do Hub de Moda e Lifestyle da ESPM Panamericana, escala e tecnologia não bastam sem comunicação. Ela lembra que, no chamado Sistema Moda, o valor de um produto, marca ou designer se dissemina por meio de imprensa especializada, eventos do segmento, publicidade e influenciadores. “É preciso que esse valor criativo seja transformado em valor-signo”, afirma, referindo-se a um valor simbólico que chegue ao consumidor com uma narrativa de pertencimento, status e valor agregado.

O momento, na avaliação dela, é favorável: o consumidor tem valorizado a criatividade local pela autenticidade e singularidade que ela oferece diante de um consumo massificado. “E quando se fala em moda isso é uma moeda muito valorizada.” Andreia cita marcas de fora do eixo Rio-São Paulo, como Nannacay, Adriana Meira, Calado e Sioduhi, já reconhecidas pela autoralidade. “O que precisa agora é existir uma constância efetiva na construção de marca frente ao público nacional”, diz.

Rabelo vê o congresso como vitrine, não como ponto de chegada. Para ele, o legado deve ser medido por rodadas de negócios que gerem contratos com compradores e investidores estrangeiros, compromissos concretos em sustentabilidade e uma agenda que transforme contatos em missões e exportações. “O que fizermos no dia seguinte é o que vai definir se o Ceará muda de patamar.”

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