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15 de outubro de 2026 14:24

Recife vira vitrine de uma nova geografia das oportunidades no mercado financeiro

Recife vira vitrine de uma nova geografia das oportunidades no mercado financeiro

Chegada da Galapagos Capital, companhia de investimentos com mais de R$ 40 bilhões sob gestão, expõe o interesse crescente do capital privado pelo Nordeste; para especialista, o dinheiro segue concentrado em São Paulo, mas os negócios estão cada vez menos presos ao eixo Rio-SP
Foto: Reprodução/Internet

A abertura de um escritório da Galapagos Capital no Recife, em setembro, poderia ser lida apenas como mais uma expansão comercial de uma casa de investimentos. Mas o movimento da companhia de investimentos, que tem mais de R$ 40 bilhões sob gestão, ajuda a responder a uma pergunta que ganha força no mercado: o que está fazendo o capital privado olhar com mais atenção para o Nordeste, e por que Recife aparece como porta de entrada desse movimento?

Para a empresa, a escolha da capital pernambucana foi estratégica. “A chegada da Galapagos Capital em Recife tem um significado estratégico muito claro: estar fisicamente presente no principal centro de decisão do Nordeste”, afirma Arnaldo Curvello, sócio e diretor de Wealth Management da empresa. Segundo ele, é de Recife que “se articulam negócios que se espalham por todo o Norte-Nordeste”.

O executivo cita os vetores de crescimento de Pernambuco: o complexo de Suape, que se firma como hub logístico e polo da transição energética, com projetos de combustíveis sustentáveis que atraem capital internacional; um dos maiores ecossistemas de tecnologia do país; um setor de saúde que é referência regional; e as cadeias sucroenergética, de varejo, construção civil e energia renovável no Agreste e no Sertão. “É uma economia diversificada, que gera liquidez, gera novos patrimônios e demanda sofisticação financeira”, diz.

Mudança de qualidade, não de velocidade

Para Jorge Ferreira dos Santos Filho, professor do curso de Administração da ESPM, a chegada de grandes gestoras ao Recife é, sim, sinal de mudança na geografia dos investimentos, mas com uma ressalva. “Isso ainda não significa que o eixo financeiro brasileiro esteja se deslocando”, pondera. Na avaliação dele, São Paulo seguirá concentrando uma parcela muito significativa da indústria financeira. “O capital continua fortemente concentrado em São Paulo, mas a origem dos negócios, dos empreendedores e das oportunidades de investimento está cada vez menos restrita aos grandes centros tradicionais.”

O professor também recomenda cautela com os números. O Banco do Nordeste projetou crescimento da atividade econômica regional de cerca de 2,4% em 2025 e apontou, até julho, expansão acumulada próxima de 2,8%. “Não estamos falando de uma região que esteja crescendo a taxas exponencialmente superiores às do restante do país”, diz. O que mudou, segundo ele, foi a composição desse crescimento: além de turismo, comércio e agricultura, a região passou a reunir projetos de energia renovável, transmissão, infraestrutura, logística, data centers e bioeconomia.

Só na área de energia, o Banco do Nordeste identificou mais de R$ 200 bilhões em projetos em seu radar de investimentos para 2026. “Independentemente do ritmo de execução desses projetos, o volume ajuda a dimensionar o potencial de capital que pode ser mobilizado nessa cadeia”, afirma Jorge.

Os trunfos e os limites de Recife

Entre os fatores que favorecem a capital pernambucana, o professor destaca o Porto Digital, que encerrou 2025 com 541 empresas, mais de 20 mil profissionais e faturamento superior a R$ 7 bilhões, e o aeroporto, o maior do Nordeste em movimentação de passageiros, com mais de 10 milhões de passageiros em 2025. Para ele, o parque tecnológico mostra que a cidade “já conseguiu formar um ambiente capaz de gerar empresas, executivos, fornecedores e, principalmente, capital intelectual”.

As limitações, porém, também são claras: menor densidade de sedes de grandes empresas, concentração ainda pequena de investidores institucionais, presença menos robusta de bancos de investimento e dificuldade de formar e reter profissionais especializados em mercado de capitais, operações estruturadas e fusões e aquisições.

Um traço da economia regional ajuda a explicar o interesse das gestoras: o peso das empresas familiares. Curvello observa que muitos patrimônios no Nordeste ainda estão concentrados no negócio da família e em ativos reais. “Por isso, as conversas costumam começar por sucessão, organização patrimonial e separação entre o patrimônio da empresa e o da família, e só depois chegam à alocação financeira”, explica. Em São Paulo e no Rio, compara, a conversa muitas vezes já parte da sofisticação da carteira.

Além da gestão de patrimônio, comandada por Pedro da Fonte, a unidade do Recife vai atuar em crédito, mercado de capitais e fusões e aquisições, frente conduzida por Victor Aracaty, responsável por Novos Negócios na região, em conexão com o Investment Banking da Galapagos. O alvo são empresas de médio porte, muitas delas familiares, que chegam a um ponto de inflexão: expansão, entrada de sócio, reorganização societária, sucessão ou consolidação setorial.

Para o executivo, o principal entrave ainda é cultural. “Hoje ainda prevalece a cultura de captar recursos pelo sistema bancário tradicional, que é um caminho legítimo, mas que nem sempre oferece a melhor estrutura de prazo, custo e alinhamento para o crescimento dessas empresas”, afirma. Debêntures, fundos e participações, diz, permitem às companhias acessar investidores institucionais diretamente.

Presença física não basta

O professor da ESPM concorda que a proximidade reduz uma distância “que muitas vezes não é apenas geográfica, mas também de informação e relacionamento”. Mas faz um alerta: “Simplesmente abrir escritórios não produz esse efeito automaticamente”. Para ele, o diferencial está em montar equipes locais capazes de originar, analisar e estruturar operações, e não apenas distribuir produtos, além de formar uma rede de bancos, escritórios de advocacia, auditorias, consultorias e universidades.

Para separar tendência estrutural de movimento pontual, o professor sugere acompanhar o volume e a recorrência de emissões de debêntures de empresas da região, as operações de private equity e venture capital, o mercado de fusões e aquisições e a chegada de outras instituições com equipes permanentes. “Um escritório inaugurado é um sinal”, resume. “É essa persistência que precisamos observar.”

Na Galapagos, o tom também é de prudência. Sobre levar a operação a outras capitais nordestinas, Curvello diz que a empresa prefere “avançar com disciplina: consolidar Recife e, a partir do que aprendermos ouvindo a região, avaliar os próximos passos”.

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