
A abertura de um escritório da Galapagos Capital no Recife, em setembro, poderia ser lida apenas como mais uma expansão comercial de uma casa de investimentos. Mas o movimento da companhia de investimentos, que tem mais de R$ 40 bilhões sob gestão, ajuda a responder a uma pergunta que ganha força no mercado: o que está fazendo o capital privado olhar com mais atenção para o Nordeste, e por que Recife aparece como porta de entrada desse movimento?
Para a empresa, a escolha da capital pernambucana foi estratégica. “A chegada da Galapagos Capital em Recife tem um significado estratégico muito claro: estar fisicamente presente no principal centro de decisão do Nordeste”, afirma Arnaldo Curvello, sócio e diretor de Wealth Management da empresa. Segundo ele, é de Recife que “se articulam negócios que se espalham por todo o Norte-Nordeste”.
O executivo cita os vetores de crescimento de Pernambuco: o complexo de Suape, que se firma como hub logístico e polo da transição energética, com projetos de combustíveis sustentáveis que atraem capital internacional; um dos maiores ecossistemas de tecnologia do país; um setor de saúde que é referência regional; e as cadeias sucroenergética, de varejo, construção civil e energia renovável no Agreste e no Sertão. “É uma economia diversificada, que gera liquidez, gera novos patrimônios e demanda sofisticação financeira”, diz.
Mudança de qualidade, não de velocidade
Para Jorge Ferreira dos Santos Filho, professor do curso de Administração da ESPM, a chegada de grandes gestoras ao Recife é, sim, sinal de mudança na geografia dos investimentos, mas com uma ressalva. “Isso ainda não significa que o eixo financeiro brasileiro esteja se deslocando”, pondera. Na avaliação dele, São Paulo seguirá concentrando uma parcela muito significativa da indústria financeira. “O capital continua fortemente concentrado em São Paulo, mas a origem dos negócios, dos empreendedores e das oportunidades de investimento está cada vez menos restrita aos grandes centros tradicionais.”
O professor também recomenda cautela com os números. O Banco do Nordeste projetou crescimento da atividade econômica regional de cerca de 2,4% em 2025 e apontou, até julho, expansão acumulada próxima de 2,8%. “Não estamos falando de uma região que esteja crescendo a taxas exponencialmente superiores às do restante do país”, diz. O que mudou, segundo ele, foi a composição desse crescimento: além de turismo, comércio e agricultura, a região passou a reunir projetos de energia renovável, transmissão, infraestrutura, logística, data centers e bioeconomia.
Só na área de energia, o Banco do Nordeste identificou mais de R$ 200 bilhões em projetos em seu radar de investimentos para 2026. “Independentemente do ritmo de execução desses projetos, o volume ajuda a dimensionar o potencial de capital que pode ser mobilizado nessa cadeia”, afirma Jorge.
Os trunfos e os limites de Recife
Entre os fatores que favorecem a capital pernambucana, o professor destaca o Porto Digital, que encerrou 2025 com 541 empresas, mais de 20 mil profissionais e faturamento superior a R$ 7 bilhões, e o aeroporto, o maior do Nordeste em movimentação de passageiros, com mais de 10 milhões de passageiros em 2025. Para ele, o parque tecnológico mostra que a cidade “já conseguiu formar um ambiente capaz de gerar empresas, executivos, fornecedores e, principalmente, capital intelectual”.
As limitações, porém, também são claras: menor densidade de sedes de grandes empresas, concentração ainda pequena de investidores institucionais, presença menos robusta de bancos de investimento e dificuldade de formar e reter profissionais especializados em mercado de capitais, operações estruturadas e fusões e aquisições.
Um traço da economia regional ajuda a explicar o interesse das gestoras: o peso das empresas familiares. Curvello observa que muitos patrimônios no Nordeste ainda estão concentrados no negócio da família e em ativos reais. “Por isso, as conversas costumam começar por sucessão, organização patrimonial e separação entre o patrimônio da empresa e o da família, e só depois chegam à alocação financeira”, explica. Em São Paulo e no Rio, compara, a conversa muitas vezes já parte da sofisticação da carteira.
Além da gestão de patrimônio, comandada por Pedro da Fonte, a unidade do Recife vai atuar em crédito, mercado de capitais e fusões e aquisições, frente conduzida por Victor Aracaty, responsável por Novos Negócios na região, em conexão com o Investment Banking da Galapagos. O alvo são empresas de médio porte, muitas delas familiares, que chegam a um ponto de inflexão: expansão, entrada de sócio, reorganização societária, sucessão ou consolidação setorial.
Para o executivo, o principal entrave ainda é cultural. “Hoje ainda prevalece a cultura de captar recursos pelo sistema bancário tradicional, que é um caminho legítimo, mas que nem sempre oferece a melhor estrutura de prazo, custo e alinhamento para o crescimento dessas empresas”, afirma. Debêntures, fundos e participações, diz, permitem às companhias acessar investidores institucionais diretamente.
Presença física não basta
O professor da ESPM concorda que a proximidade reduz uma distância “que muitas vezes não é apenas geográfica, mas também de informação e relacionamento”. Mas faz um alerta: “Simplesmente abrir escritórios não produz esse efeito automaticamente”. Para ele, o diferencial está em montar equipes locais capazes de originar, analisar e estruturar operações, e não apenas distribuir produtos, além de formar uma rede de bancos, escritórios de advocacia, auditorias, consultorias e universidades.
Para separar tendência estrutural de movimento pontual, o professor sugere acompanhar o volume e a recorrência de emissões de debêntures de empresas da região, as operações de private equity e venture capital, o mercado de fusões e aquisições e a chegada de outras instituições com equipes permanentes. “Um escritório inaugurado é um sinal”, resume. “É essa persistência que precisamos observar.”
Na Galapagos, o tom também é de prudência. Sobre levar a operação a outras capitais nordestinas, Curvello diz que a empresa prefere “avançar com disciplina: consolidar Recife e, a partir do que aprendermos ouvindo a região, avaliar os próximos passos”.