
O crescimento do varejo em Alagoas tem sido puxado, sobretudo, por segmentos considerados essenciais pela população. Em um cenário de maior cautela nas decisões de compra, supermercados, farmácias e estabelecimentos ligados à construção civil, como home centers, lojas de materiais de construção e itens de decoração, despontam como principais motores do consumo no estado. A mudança no comportamento do consumidor, mais racional e atento aos gastos, tem redirecionado a dinâmica do setor e influenciado as perspectivas de crescimento ao longo do ano.
A mudança no perfil de consumo já vem sendo percebida pelo setor varejista, que acompanha com atenção os novos hábitos da população diante de um cenário econômico mais desafiador. Entidades ligadas ao comércio, como a Associação Comercial e a Associação dos Supermercados de Alagoas (ASA), apontam um consumidor mais cauteloso e focado em compras essenciais, ao mesmo tempo em que ajustam estratégias para atender a essa nova dinâmica do mercado. Especialistas da área econômica também observam mudanças no comportamento de compra e seus reflexos sobre o crescimento do varejo no estado.
Para o vice-presidente financeiro da Associação Comercial de Maceió, Marcos Tavares, a mudança no comportamento do consumidor está diretamente relacionada à combinação de fatores econômicos que pressionam o orçamento das famílias. Segundo ele, o elevado nível de endividamento, o custo alto do crédito, a redução do poder de compra e a perda da renda real têm levado a população a priorizar despesas consideradas essenciais, deixando em segundo plano gastos vistos como não prioritários. O reflexo, afirma, já é percebido diariamente pelo varejo, inclusive com redução no volume de compras e no ticket médio dos consumidores.
“Mesmo quando existe fluxo de consumidores nas lojas, percebemos uma diminuição no ticket médio das compras e também no volume de produtos adquiridos. O cliente continua consumindo, porém de forma muito mais racional, pesquisando mais, comparando preços e buscando preservar o orçamento familiar. Muitas vezes, o parcelamento deixou de ser uma conveniência e passou a ser uma necessidade para viabilizar a compra”, destaca.
Apesar do cenário de maior prudência e contenção de despesas por parte das famílias, o dirigente da Associação Comercial ressalta que o setor produtivo segue buscando alternativas para manter a atividade econômica aquecida. De acordo com ele, empresários têm apostado em promoções, melhores condições de pagamento e estratégias para preservar o consumo dentro da realidade financeira atual da população, embora o momento ainda exija cautela e recuperação gradual da confiança do consumidor.
O presidente da ASA, Raimundo Barreto de Sousa, avalia que o setor supermercadista no estado tem acompanhado o crescimento observado nacionalmente, impulsionado por um mercado consumidor ainda ativo, pela confiança dos empresários e por um ambiente econômico relativamente mais estável. Segundo ele, tanto a capital quanto o interior vêm registrando expansão do segmento, cenário favorecido por uma inflação mais controlada e maior estabilidade nos preços, fatores que ajudam a sustentar o consumo das famílias.

“Também percebemos um consumidor mais atento ao planejamento das compras, com maior foco em itens essenciais e na busca por melhor custo-benefício. Isso tem levado os supermercados a ampliarem ações promocionais, reforçarem o mix de produtos e investirem cada vez mais em estratégias comerciais voltadas à economia e à conveniência”, afirma.
De acordo com o presidente da ASA, categorias ligadas a alimentos básicos, higiene pessoal, limpeza e itens de consumo imediato têm liderado o desempenho do setor, refletindo um padrão de compra mais seletivo e racional. Ele enfatiza ainda o fortalecimento dos chamados mercados de vizinhança e a expansão do segmento no interior de Alagoas, o que, na avaliação da entidade, sinaliza demanda crescente e necessidade contínua de investimentos, modernização e ampliação da presença das empresas em diferentes regiões do estado.
Na visão do economista Lucas Sorgato, o crescimento de segmentos ligados ao consumo essencial está diretamente associado à reorganização das prioridades das famílias brasileiras. Segundo ele, embora o país registre níveis historicamente baixos de desemprego, a renda do trabalhador não avançou no mesmo ritmo do custo de vida, fazendo com que o orçamento doméstico seja direcionado, prioritariamente, para itens de subsistência, como alimentação, higiene pessoal, medicamentos e vestuário básico. Esse cenário ajuda a explicar o fortalecimento de supermercados, farmácias e mercados de vizinhança, além da expansão de serviços ligados ao consumo cotidiano.

“A população está mais empregada, mas isso não significa necessariamente maior poder de compra. O salário não cresceu na mesma proporção dos custos de vida e a inflação segue persistente. Com isso, a necessidade básica de consumo vem primeiro: alimentação, higiene pessoal e medicamentos acabam sendo prioridade. O consumidor continua comprando, mas muito mais focado naquilo que é essencial para a manutenção da qualidade de vida da família”, explica.
O economista acrescenta que a construção civil também tem apresentado desempenho positivo, sobretudo no segmento de reformas e melhorias residenciais, impulsionado pela ampliação do acesso ao crédito habitacional e programas como o Minha Casa, Minha Vida. Ainda assim, pondera que a manutenção de juros elevados, acima do que o mercado projetava no início do ano, a inflação ainda resistente e a perda de renda disponível seguem limitando o consumo em setores considerados não essenciais, reforçando um padrão de compra mais racional e seletivo por parte das famílias.