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28 de maio de 2026 17:36

Geopolítica e segurança energética dominam debates no Bahia Oil & Gas Energy 2026

Geopolítica e segurança energética dominam debates no Bahia Oil & Gas Energy 2026

Painéis abordam os reflexos dos conflitos internacionais sobre a produção regional e as oportunidades para o Brasil
Foto: Sara Correia

No marco da edição 2026 do Bahia Oil & Gas Energy (BOGE), evento internacional que se consolidou como o maior encontro do setor de petróleo e gás do Norte e Nordeste do Brasil, realizado de 27 a 29 de maio, em Salvador (BA), as expectativas são altas, especialmente em um cenário global de tensões geopolíticas e transição energética. A busca global por segurança energética, os impactos dos conflitos internacionais sobre o mercado de petróleo e gás e as perspectivas de expansão da produção brasileira dominaram os principais debates no primeiro dia do encontro.

Destaques da programação, os painéis “Impactos da geopolítica mundial no upstream do Norte e Nordeste do Brasil” e “Perspectivas do E&P na Margem Equatorial e Sergipe” concentraram as atenções ao abordar os reflexos dessas turbulências internacionais sobre a produção regional e as oportunidades para o Brasil, e trouxeram análises sobre o novo posicionamento estratégico da América Latina no cenário energético mundial.

No primeiro debate, mediado por Paulo Guimarães (diretor-presidente da Bahiainveste), representantes de diferentes países debateram desde o ressurgimento da produção venezuelana até as novas projeções para a Argentina e os desafios da autossuficiência brasileira, e apontaram que a guerra e as disputas comerciais vêm acelerando uma corrida global por fornecedores considerados mais seguros e estáveis.

Presidente da Venezuelan American Petroleum Association e CEO da OQN2Solutions, Omán Oquendo falou sobre o ressurgimento petroleiro venezuelano e o impacto no Brasil, e destacou que a Venezuela possui capacidade para ampliar sua produção e vive uma expectativa de retomada do protagonismo petrolífero, mas ainda enfrenta obstáculos importantes para atrair investimentos internacionais. Oquendo revelou que existe uma oportunidade relevante para integração regional e aumento da participação da América Latina no fornecimento global, mas que, no caso da Venezuela, os investidores ainda aguardam maior segurança jurídica e estabilidade institucional.

Segundo o executivo, “o Brasil poderia compensar a produção e exportação para a China, por exemplo, uma vez que a Venezuela não pode exportar para a China”. Indagado sobre o interesse da Petrobras, respondeu não saber, mas classificou como “uma oportunidade, lembrando que já existem projetos com participação da estatal e espaço para aumentar participação”.

Foto: Sara Correia

Na mesma linha, Daniel Leppert, vice-presidente sênior e chefe da América Latina da consultoria norueguesa Rystad Energy, avaliou que a segurança energética se tornou hoje o principal desafio global do setor. Ele lembrou que os conflitos internacionais atuais retiraram do mercado um volume significativo de petróleo e gás (cerca de 10%), pressionando preços e estimulando novos projetos de produção. “Para se ter uma ideia, o volume paralisado de outras guerras equivale ao que já está represado na guerra hoje”, alertou. “Mesmo nas previsões mais otimistas, os preços devem permanecer elevados nos próximos períodos para atender à demanda reprimida. Mas há espaço para mais produção”, completou.

Leppert ressaltou que 45% do volume mundial de petróleo está no Oriente Médio, 22% nos EUA e apenas 10% na América do Sul; uma fatia que pode crescer com a recuperação da Venezuela e o avanço da Argentina e do Brasil. “Há uma disputa global pela atração de investimentos. Há alguns anos não se previa o que a Argentina se tornou hoje no mercado energético. E, se a Venezuela recuperar seu potencial, a participação latino-americana cresce ainda mais. O Brasil, que possui várias bacias com grande potencial, precisa fazer o dever de casa para aproveitar essa janela”, afirmou.

Para que essas oportunidades não sejam desperdiçadas, o Brasil deve agir em torno da autossuficiência. Essa é a reflexão feita por Anabal Santos, CEO da Solução Energia, a partir de uma provocação inicial: “Estamos enfrentando a maior crise energética do mundo e, internamente, sentimos pouco os impactos porque ainda temos capacidade de produção. Mas isso não garante o futuro. A tensão geopolítica não é de agora. Com diversas idas e vindas – certamente está se agravando –, mas não será a última e devem surgir outras crises energéticas. Temos de ter consciência: o que tem que ser feito para não perdermos a nossa autossuficiência?”, questionou.

Anabal Santos, CEO da Solução Energia | Foto: Sara Correia

Para Santos, o Brasil precisa acelerar investimentos em refino, ampliar a exploração e melhorar sua competitividade regional. O executivo alertou para a ausência de uma política de Estado consistente para o setor de petróleo e gás no país e fez críticas ao CNPE (Conselho Nacional de Política Energética). “Temos o mercado consolidado, mas nossa competitividade na América do Sul ainda é baixa. Alguns programas e resoluções foram aprovados em 2024 pelo CNPE, mas não avançaram. O Brasil tem uma posição muito mais relevante no cenário do que é dito e mostrado, mas peca pela cultura de decisão muito lenta. Como permanecermos autossuficientes se não podemos avançar nas descobertas de novos pontos de exploração? É voar sem ter um plano de voo”, finalizou.

Complementando o panorama regional, Leonardo Brkusic, diretor executivo do GAPP, associação ligada ao setor energético da Argentina, apresentou atualizações sobre a produção na Bacia de Neuquén e os impactos regionais. “O projeto Vaca Muerta, responsável atualmente por cerca de 66% da produção de hidrocarbonetos do país, já mostrou que tem potencial para transformar a região em um polo de exportação energética e consolidar a Argentina no mercado de exportação de gás natural”, explicou Brkusic.

Ele destacou que “a Argentina já está produzindo mais gás e mais petróleo, e as decisões de investimento já estão acontecendo. O país já firmou contratos para garantir fornecimento à Europa, especialmente Alemanha, e tem avançado na construção de infraestrutura logística e de dutos: “há muitos dutos já em construção”, disse, evidenciando a competitividade argentina na atração de capitais.

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