
As famílias nordestinas buscam reorganizar o orçamento para lidar com a alta do custo de vida e o aumento do endividamento. Dentro deste cenário, a proteção financeira e a adesão a seguros, serviços de prevenção que dependem de comprometimento com uma mensalidade, permanecem distantes da realidade da maior parte da população da região.
Dados da Fenaprevi mostram que apenas 9% dos nordestinos possuem seguro de vida, índice que representa metade da média nacional, de 18%. Isto em uma região que convive com desafios econômicos significativos e onde eventos como perda de renda, doenças graves, invalidez ou morte de um provedor podem comprometer a estabilidade financeira de toda a família.
O cenário acompanha o avanço da inadimplência. Conforme fontes do Boletim Macro Regional Nordeste, elaborado pelo FGV Ibre, a inadimplência das famílias da região cresceu 5,2% no encerramento de 2025, acima da média nacional, que registrou alta de 4%. Em alguns estados, os indicadores são ainda mais expressivos. No Ceará, por exemplo, 89,1% das famílias possuem algum tipo de dívida, enquanto 48,1% relatam contas em atraso.
A vulnerabilidade financeira também aparece na dificuldade de formar reservas. Pesquisas nacionais apontam que entre 31% e 43% dos brasileiros não possuem qualquer reserva de emergência. Para muitas famílias, a renda disponível é direcionada quase integralmente para despesas essenciais, reduzindo a capacidade de absorver choques financeiros inesperados.
Uma região marcada por responsabilidades familiares
O debate sobre proteção financeira ganha profundidade quando observado o perfil dos lares nordestinos. Dados do Censo Demográfico mostram que todos os estados da região registram mais de 50% dos domicílios sob responsabilidade feminina. Pernambuco lidera o ranking nacional, com 53,9% dos lares chefiados por mulheres.
Ao mesmo tempo, o Nordeste concentra uma parcela expressiva da população que depende diretamente de benefícios previdenciários. A região reúne cerca de 26% dos aposentados do país e mais da metade dos segurados rurais brasileiros, evidenciando a importância dos mecanismos de proteção de renda para milhões de famílias.
Nesse contexto, cresce a percepção de que o planejamento financeiro precisa ir além da organização do orçamento mensal e incluir estratégias capazes de preservar o patrimônio familiar diante de situações adversas.
Uma pesquisa da Fenaprevi em parceria com o Datafolha, realizada nas regiões Norte e Nordeste, ajuda a explicar essa preocupação. O levantamento identificou que os três maiores medos da população são não ter condições de arcar com tratamentos médicos (26%), deixar a família desamparada em caso de morte ou doença (19%) e perder o emprego (16%).
Os resultados refletem uma realidade em que a proteção financeira passa a ser vista como parte da gestão de riscos das famílias, especialmente em um cenário de orçamento mais pressionado e maior instabilidade econômica.
Para Rafael Cló, cofundador e CEO da Azos, as diferenças observadas na contratação de seguros também demonstram que a população nordestina busca soluções alinhadas às necessidades locais.
“Cada estado apresenta características próprias que refletem sua realidade econômica, social e cultural. Entender essas particularidades é fundamental para ampliar a inclusão financeira e oferecer proteção adequada para as famílias”, afirma.
Apesar da baixa penetração, o mercado segurador avança na região. Dados da CNseg indicam que os segmentos de seguros nas regiões Norte e Nordeste movimentaram R$ 18,9 bilhões no primeiro semestre de 2025. Somente o seguro de vida arrecadou R$ 1,61 bilhão no período, crescimento de 13,9% em relação ao ano anterior.
Levantamento da Azos mostra ainda que Bahia, Ceará e Pernambuco concentram cerca de 66% dos segurados da companhia na região, evidenciando o potencial de expansão do setor.
O avanço ocorre em paralelo ao aumento da conscientização sobre educação financeira. Instituições como o Banco do Nordeste têm ampliado iniciativas voltadas à orientação financeira, estimulando práticas de planejamento, organização do orçamento e tomada de decisões mais conscientes sobre proteção patrimonial e familiar.
O seguro de vida tem sido incorporado ao planejamento financeiro como um mecanismo de preservação de renda e redução da vulnerabilidade econômica. Em uma região onde grande parte das famílias ainda opera com margens financeiras reduzidas, a discussão sobre proteção ganha espaço à medida que cresce a preocupação com a segurança financeira de longo prazo.