Jornalismo econômico para a inovação no Nordeste -
Jornalismo econômico para a inovação no Nordeste -
15 de junho de 2026 16:53

Produção de vinho no Nordeste desafia tradição e conquista novos paladares

Produção de vinho no Nordeste desafia tradição e conquista novos paladares

A produção de uvas viníferas, a principal matéria-prima utilizada na elaboração de vinhos, avança por áreas antes consideradas improváveis
Vinícola Vale das Colinas | Foto: divulgação

Vinho remete ao frio, certo? Há até alguns anos, os especialistas poderiam dizer que sim. Mas essa já não é mais a realidade do que se observa pelo país. A geografia do vinho brasileiro vem passando por modificações estruturais na produção do vinho que confrontam o modelo tradicional – localizado mais ao Sul. A produção de uvas viníferas, a principal matéria-prima utilizada na elaboração de vinhos, avança por áreas antes consideradas improváveis. Com isso, vai consolidando polos vitivinícolas em locais que estão bem distantes do frio, como o Planalto da Borborema, no agreste pernambucano, no interior da Paraíba e no litoral do Rio Grande do Norte.

Essa expansão acontece por conta da diversificação de microclimas e do suporte tecnológico, que altera dinâmicas econômicas e turísticas locais. De acordo com Patricia Coelho de Souza Leão, pesquisadora da Embrapa Semiárido, a introdução de sistemas automatizados e a transição para a viticultura – cultivo de videiras para produção de uvas – de precisão foram determinantes para a consolidação da atividade no Semiárido, que dependeu diretamente do manejo de recursos hídricos. “Dentre todas as tecnologias que utilizamos no sistema de produção, nós consideramos que a irrigação é realmente o que permite, é o que faz acontecer a viticultura aqui no semiárido”, diz Patricia.

A Embrapa Semiárido é a unidade da Embrapa localizada na cidade de Petrolina (PE).

A pesquisadora descarta, inclusive, a tese de que o solo local fosse um fator restritivo intransponível. “O solo não é um fator restritivo para o cultivo da videira em nenhuma região produtora do mundo. Nosso solo do semiárido pode ser corrigido com adubações e aporte de matéria orgânica”, explica, apontando que o desafio central estava na adaptação às condições do clima tropical.

Em Garanhuns, agreste pernambucano, o fator climático atua como diferencial produtivo devido à altitude. Michel Moreira, proprietário da Vale das Colinas – a primeira vinícola do Planalto da Borborema – aponta que a amplitude térmica da região atinge variações significativas durante o período de maturação. Ele comenta que há uma amplitude térmica na região, com microclima de dias quentes e noites frias. “Principalmente na época da colheita, a gente chega a ter uma diferença de temperatura beirando os 20, 22 graus. Você tem o sol durante o dia que vai fazer o amadurecimento desse fruto, gerar a frutose que vai resultar em álcool, ao mesmo tempo o frescor noturno traz mais aroma”, detalha Moreira.

A implementação das vinícolas gerou transformações no mercado de trabalho e na cadeia de fornecedores regionais. O projeto do Vale das Colinas, iniciado após capacitação técnica dos proprietários e cooperação com a Embrapa e o Instituto Federal, demandou a formação de mão de obra local. Funcionários rurais que desconheciam a cultura foram enviados a Petrolina para treinamento técnico sobre processos de fermentação.

O setor impulsionou atividades complementares na região. “Quando a gente começou o Vale, na época só produzia queijo coalho. Hoje, nós temos seis queijarias, duas charcutarias e a gente acha que esse mercado vai se expandir mais ainda para outros produtos que harmonizam com o vinho”, avalia Michel, que ao lado da esposa, Micheline Cavalcante Silva, comanda o Vale desde 2013. Para o proprietário, a formalização trabalhista gera um impacto direto na região agreste. Entre a missão da vinícola, está “produzir bons vinhos em Garanhuns, gerar empregos e incrementar o turismo em toda sua cadeia”.

Do ponto de vista estratégico, a escolha das novas áreas para teste de produção considerou fluxos de consumo preexistentes. Patricia diz que a Embrapa não realizou um zoneamento vitivinícola prévio para o Nordeste, baseando as escolhas na aptidão de variedades e no potencial para o enoturismo. “Como Garanhuns já era uma região com um apelo de turismo de inverno estabelecido, ela foi selecionada, porque tinha um potencial forte de desenvolvimento do enoturismo na região”, comenta.

Esse modelo serviu de referência para a expansão em direção a Bananeiras (PB) e ao litoral potiguar. Apesar do reconhecimento técnico, exemplificado por premiações nacionais e internacionais em concursos às cegas obtidas pela produção de Garanhuns, o setor enfrenta entraves operacionais e culturais. Os custos logísticos são elevados devido à distância dos centros fornecedores de insumos, localizados no Sul do país, o que encarece o transporte de garrafas e equipamentos. Há também divergências de mercado. Michel pontuou dificuldades de inserção nos centros comerciais e restaurantes das capitais nordestinas, que priorizam rótulos importados. “O brasileiro valoriza mais um vinho, às vezes de péssima qualidade, mas produzido em outro país, do que um vinho produzido em sua própria terra”, afirma o produtor.

A preocupação com a concorrência de vinhos europeus decorrente de acordos tarifários internacionais fez com que o produtor congelasse planos de expansão de seus vinhedos.

No plano climático de longo prazo, as previsões são monitoradas com cautela. A Embrapa indica alterações na distribuição de chuvas no Semiárido, mas sem impactos imediatos na viabilidade geográfica atual. “Não vamos chegar, pelo menos a curto e médio prazo, a esse extremo de ter que redesenhar o mapa, ou seja, mudar as regiões atualmente existentes de produção”, observa Patricia, destacando mais uma vez que o foco das pesquisas se mantém no desenvolvimento genético de variedades resistentes.

👆

Assine a newsletter
do Investindo por aí!

 

Gostou desse artigo? compartilhe!

Últimas

Natal
img20260602162225720MED
Amazon
Windey
Vinicola Vale das Colinas 2
Axia energia
Neoenergia
educação digital
Senai curso gratuito administração
Bras bio

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

div#pf-content img.pf-large-image.pf-primary-img.flex-width.pf-size-full.mediumImage{ display:none !important; }