
Saneamento e urbanização devem ganhar espaço no debate eleitoral em Alagoas diante de um cenário marcado por desigualdades históricas, gargalos estruturais e impactos diretos na saúde pública. Com indicadores ainda entre os piores do país, o estado enfrenta desafios que vão desde a baixa cobertura de esgotamento sanitário até a concentração dos investimentos na Região Metropolitana de Maceió, enquanto o interior segue em situação mais crítica.
Dados recentes evidenciam a dimensão do problema. Alagoas possui apenas 34,8% de cobertura de esgotamento sanitário, sendo a terceira pior do Brasil, atrás apenas do Maranhão (22,3%) e do Pará (19,8%). Embora concentre 55% da população do estado, a Região Metropolitana de Maceió absorve 78% dos investimentos em saneamento, ampliando o contraste regional. Ao mesmo tempo, o Marco Legal do Saneamento estabeleceu a meta de universalização até 2033, mas o estado precisaria investir cerca de R$ 8,2 bilhões para alcançá-la, valor próximo ao orçamento anual alagoano. Em 2024, segundo o Ministério da Saúde, foram registradas 12.847 hospitalizações por doenças relacionadas à água.
O professor doutor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Diego Freitas Rodrigues, enfatiza que temas relacionados ao saneamento e à urbanização ainda encontram dificuldades para ocupar espaço central no debate eleitoral por possuírem forte caráter técnico e estruturante, muitas vezes distante da lógica imediatista das campanhas. Segundo ele, mesmo que problemas ligados à drenagem, esgotamento sanitário e infraestrutura urbana afetem diretamente a saúde pública, influenciando, por exemplo, a incidência de arboviroses, leptospirose e doenças de veiculação hídrica, essas questões nem sempre são traduzidas em uma linguagem política acessível ao eleitor.
O cientista político destaca ainda que o ciclo eleitoral frequentemente não acompanha o tempo necessário para maturação dos resultados de políticas ambientais e sanitárias. “O saneamento ambiental é uma agenda muito técnica, e isso dificulta sua transformação em pauta política com linguagem acessível ao eleitor. Apesar das pessoas perceberem os problemas estruturais no dia a dia, como alagamentos, ausência de esgoto ou aumento de doenças, isso ainda não aparece com o peso necessário dentro das campanhas. O eleitor médio tende a enxergar demandas mais imediatas, enquanto o saneamento exige uma compreensão de longo prazo, associada à qualidade de vida e à infraestrutura”, afirma.
Na avaliação de Rodrigues, o cenário, porém, tende a evoluir gradualmente, especialmente após o Marco Legal do Saneamento, que estabeleceu metas de universalização e ampliou a pressão institucional sobre estados e municípios. Para o professor, Alagoas ainda convive com profundas desigualdades no acesso ao saneamento, mas a intensificação dos impactos climáticos e sanitários pode impulsionar uma cobrança maior do eleitorado sobre candidatos, sobretudo ao Executivo estadual. O docente acredita que, embora a pauta ainda não tenha o peso proporcional à sua relevância social, já há sinais de amadurecimento político e institucional para que o tema ganhe espaço progressivamente no debate eleitoral dos próximos anos.
Mesmo com o avanço gradual do saneamento e da urbanização no debate político-eleitoral, especialistas alertam que os gargalos estruturais, sobretudo no interior de Alagoas, exigem respostas mais rápidas para que o estado consiga cumprir as metas nacionais de universalização.
A engenheira de produção, ambiental e sanitária, Jéssica Cavalcante, menciona que os principais entraves para ampliar a cobertura de esgotamento sanitário em Alagoas, especialmente no interior, envolvem uma combinação de limitações econômicas, estruturais e burocráticas. Segundo ela, em muitos municípios, a arrecadação gerada pelas tarifas não é suficiente para sustentar os investimentos necessários em infraestrutura, enquanto redes antigas, sistemas já sobrecarregados e baixa capacidade técnica local dificultam a expansão do serviço. A especialista também aponta que processos de desapropriação e licenciamento costumam atrasar obras essenciais, comprometendo o avanço do setor.

“Apesar dos desafios, Alagoas se tornou um dos estados mais avançados do Brasil na modelagem regionalizada do saneamento. Os leilões dos blocos A, B e C trouxeram previsão de bilhões em investimentos privados para cumprir metas de universalização até 2033. Mas, para isso acontecer, é necessário que vários fatores caminhem juntos: investimento pesado, gestão eficiente, continuidade política, fiscalização forte, apoio federal, agilidade ambiental e fundiária, além da capacidade de execução das concessionárias”, ressalta.
De acordo com Jéssica Cavalcante, o maior desafio permanece na expansão do esgotamento sanitário, sobretudo no interior do estado, onde o ritmo das obras ainda precisaria acelerar significativamente entre 2026 e 2030 para cumprir as metas nacionais. A engenheira pondera que Alagoas reúne condições para se tornar um dos estados nordestinos mais avançados em saneamento até 2033, mas alerta que, sem maior prioridade à interiorização do esgoto e ao cumprimento efetivo dos contratos, a universalização tende a ocorrer de forma parcial e com atrasos em algumas regiões.
Entre metas ambiciosas, desigualdades históricas e desafios de execução, o saneamento e a urbanização devem seguir como temas de pressão crescente sobre gestores e candidatos em Alagoas. Se, por um lado, o avanço da infraestrutura ainda depende de investimentos, continuidade política e capacidade técnica, por outro, especialistas apontam que os impactos diretos na saúde pública e na qualidade de vida tendem a ampliar a cobrança da população por soluções mais concretas nos próximos ciclos eleitorais.