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29 de maio de 2026 10:32

Sete regiões metropolitanas do Nordeste alcançam IDH “muito alto” pela primeira vez

Sete regiões metropolitanas do Nordeste alcançam IDH “muito alto” pela primeira vez

País alcança categoria "muito alto" no IDH pela primeira vez, com destaque para avanço do Nordeste, onde sete regiões metropolitanas já figuram entre as de melhor desempenho
Ministros durante apresentação dos números do IDH| Foto: Renata Braga

O Brasil registrou um marco histórico no desenvolvimento humano ao ingressar, pela primeira vez, na categoria de países com Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) “muito alto”. Em 2024, o país alcançou a pontuação de 0,805, salto significativo em comparação aos 0,744 registrados em 2012. A conquista foi divulgada na terça-feira (26) em Brasília, durante a apresentação do estudo “Radar IDHM: evolução do IDHM e de seus componentes no período de 2012 a 2024”, realizado pelo Governo Federal em parceria com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).

A trajetória de avanço é expressiva. Há 30 anos, quando o Pnud iniciou o cálculo do indicador no Brasil, o país figurava na categoria de IDH baixo, com índice inferior a 0,555. A evolução consolidada ao longo das últimas décadas reflete o impacto de políticas públicas estruturais, especialmente nas áreas de educação e saúde, que impulsionaram a melhoria da qualidade de vida da população brasileira.

Entre os três componentes do IDH — educação, saúde/longevidade e renda —, a educação foi o parâmetro que mais contribuiu para o avanço nacional. O subíndice saltou de 0,679 em 2012 para 0,798 em 2024, aproximando-se da faixa de muito alto desenvolvimento. A coordenadora da Unidade de Desenvolvimento Humano do Pnud Brasil, Betina Barbosa, atribuiu parte desse resultado diretamente ao programa Bolsa Família. “É o programa Bolsa Família que retira quantidade enorme de crianças do trabalho e dá a elas a condição da escola e a obrigatoriedade, também, de estar na escola. Então, aqui vejo diretamente o efeito de uma política pública brasileira”, afirmou.

Barbosa ressaltou que o programa, criado em 2003, começa a produzir efeitos mensuráveis cerca de dez anos depois, quando o primeiro grupo de beneficiários completa um período satisfatório de ensino fundamental e médio. A melhoria dos indicadores educacionais foi ainda mais significativa entre famílias de renda mais baixa, em especial as negras, que passaram a apresentar melhor performance a partir de 2016. “A política pega um grupo que estava excluído e bota esse grupo para dentro do diálogo do desenvolvimento humano”, destacou a especialista, que alertou para a impossibilidade de avanço nacional sem a inclusão da população negra e das mulheres na agenda de políticas públicas.

Na saúde, o Brasil já registrava desempenho de “muito alto desenvolvimento” em 2012 (0,829), fruto da consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS) desde a Constituição de 1988. O subíndice, porém, apresentou crescimento mais lento, chegando a 0,860 em 2024. Já a renda evoluiu de 0,732 para 0,760 no período, mantendo-se no patamar de alto desenvolvimento, mas com velocidade de crescimento inferior à dos demais componentes.

De olho no Nordeste

O Nordeste emerge como protagonista dessa transformação. Das nove unidades da federação da região, sete regiões metropolitanas já apresentam IDH muito alto — algo inédito nos trabalhos do Pnud no Brasil. A lista inclui Natal (0,822), Aracaju (0,809), Grande Teresina (0,809), Recife (0,806), São Luís (0,806), Salvador (0,803) e João Pessoa (0,803). “Esses territórios que antes puxavam a média Brasil para baixo, porque não acompanhavam o ritmo de crescimento, agora são unidades que ajudam o país a alcançar a média ‘muito alta'”, observou Betina Barbosa.

O avanço regional foi reconhecido pelo ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos, durante a solenidade de divulgação do estudo. “O Piauí, que lá atrás foi marcado pela pobreza, mostra nesses dados que teve um dos maiores crescimentos do IDH no Brasil”, ressaltou o ministro.

O Piauí, de fato, consolidou-se como um dos casos mais emblemáticos de superação. O estado aparece ao lado de Alagoas e Rio Grande do Norte entre as unidades da federação que registraram os maiores crescimentos do IDH no período de 2012 a 2024. Em 2024, o IDH do Piauí atingiu 0,76, colocando-o na faixa de alto desenvolvimento. O governador Rafael Fonteles atribuiu o resultado à continuidade das políticas públicas e a um planejamento voltado para reduzir desigualdades regionais, iniciado em 2003, no primeiro mandato do ex-governador Wellington Dias.

“Uma das decisões políticas mais importantes tomadas pelo Piauí foi adotar um olhar territorializado para os 224 municípios e as 28 microrregiões do estado. Nós aceleramos ainda mais essa visão para garantir que o desenvolvimento chegue a todas as regiões”, explicou Fonteles. O desafio piauiense, segundo o governador, é ainda maior por se tratar de um estado majoritariamente rural, com uma das maiores populações do campo do país. “O Piauí é um estado majoritariamente rural, o que torna mais desafiador levar políticas de educação, saúde e renda para todas as regiões. Essa evolução significa muito para o desenvolvimento do nosso estado”, destacou.

Aracaju, por sua vez, surge como outro exemplo de destaque nordestino. A capital sergipana alcançou índice de 0,809, integrando o seleto grupo de regiões metropolitanas da região classificadas como de desenvolvimento humano muito alto. O desempenho coloca Aracaju lado a lado com cidades como Natal (0,822), Grande Teresina (0,809) e Recife (0,806), consolidando uma nova realidade para as metrópoles nordestinas.

Apesar dos avanços, o Pnud alerta para desafios persistentes. A mortalidade infantil é o indicador que mais preocupa a organização e está diretamente atrelada à necessidade de respostas rápidas em políticas públicas. A coordenadora Betina Barbosa também destacou os efeitos da pandemia de covid-19 entre 2020 e 2022, que configurou uma crise sistêmica para o país. Em 2021, o IDH chegou a recuar para 0,757. “Ainda não nos recuperamos aqui, em termos de esperança de vida, do baque da covid-19”, ponderou, criticando a negação inicial dos impactos da crise sanitária sobre o desenvolvimento humano.

Os resultados do Radar IDHM foram calculados com base nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do IBGE, em parceria com a equipe técnica e pesquisadores da Fundação João Pinheiro. O estudo reforça que, embora o Brasil tenha alcançado um patamar inédito, a manutenção do crescimento depende da continuidade de investimentos em educação, saúde e inclusão social, com atenção especial às desigualdades de raça e gênero que ainda permeiam o desenvolvimento nacional.

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