
O Ceará se acostumou a aparecer nos rankings nacionais de transição energética. O estado lidera projetos de hidrogênio verde, concentra uma das maiores carteiras de energia eólica offshore do país e transformou o Complexo do Pecém em vitrine da nova economia verde brasileira. Mas, à medida que os investimentos bilionários avançam, uma pergunta começa a ganhar peso político no estado: essa corrida energética está gerando desenvolvimento distribuído e empregos na mesma velocidade em que atrai capital?
Nos últimos anos, o Ceará consolidou uma posição estratégica no setor. Em 2024, 68,7% da matriz elétrica estadual já vinha de fontes solar e eólica, segundo dados do IBGE. Ao mesmo tempo, o governo estadual intensificou a política de atração de empresas ligadas ao hidrogênio verde, data centers, indústria de baixo carbono e infraestrutura energética. Em 2025, o estado contabilizou cerca de R$ 210 bilhões em investimentos associados à transição energética, tecnologia e indústria, segundo balanço da Secretaria do Desenvolvimento Econômico.
O avanço mais simbólico talvez esteja no litoral. O Ceará lidera o país em projetos de eólicas offshore, com 25 empreendimentos em análise no Ibama, o equivalente a 27% dos projetos nacionais. Isso reúne gigantes internacionais do setor energético e movimenta projeções que ultrapassam R$ 600 bilhões em investimentos potenciais.
Esse novo ciclo econômico ajudou a consolidar o discurso do governo Elmano de Freitas de que o Ceará pode se tornar um dos principais polos globais de energia limpa e indústria verde. A aposta envolve desde a produção de hidrogênio verde para exportação até a atração de indústrias eletrointensivas, como siderurgia verde, fertilizantes e grandes estruturas de processamento de dados, os chamados data centers.
Mas o avanço acelerado desses projetos também passou a produzir tensões políticas e sociais que devem ocupar espaço central no debate eleitoral de 2026. Nos últimos meses, comunidades litorâneas, movimentos socioambientais e pesquisadores passaram a questionar os impactos territoriais da nova economia energética sobre pesca artesanal, acesso à água, ocupação do litoral e consumo energético de grandes empreendimentos privados.
Parte dessas críticas ganhou força após a repercussão do projeto de instalação de um data center ligado ao TikTok no Ceará, que gerou mobilização de moradores e debate sobre uso intensivo de energia e recursos hídricos.
O dilema começa a aparecer de forma mais explícita no debate público. O Ceará conseguiu atrair investimentos históricos, mas ainda enfrenta dificuldades para transformar parte desse dinamismo em emprego massivo e distribuição territorial de renda, especialmente fora dos grandes polos industriais e portuários.
Dados divulgados pelo próprio governo estadual apontam que os acordos firmados em 2025 com 80 empresas têm potencial de gerar cerca de 11,9 mil empregos diretos. Embora expressivo, o número é considerado pequeno diante do volume bilionário de investimentos anunciados, sobretudo em setores altamente automatizados e de grande intensidade tecnológica.
Além disso, especialistas apontam que muitos dos empregos gerados durante a fase de implantação de parques e grandes estruturas energéticas tendem a ser temporários, enquanto a operação posterior demanda mão de obra mais reduzida e altamente qualificada.
Para o cientista político André Bezerra, pesquisador das relações entre desenvolvimento regional e política industrial, esse cenário tende a se transformar em um dos temas centrais das próximas eleições estaduais. “O Ceará conseguiu construir uma narrativa forte de protagonismo na transição energética. O desafio agora é mostrar como esse crescimento se traduz em emprego qualificado, renda e redução de desigualdades. Esse será um debate inevitável para qualquer candidatura competitiva em 2026”, afirma.
Segundo ele, os candidatos ao governo e à Assembleia Legislativa deverão enfrentar uma pressão crescente para responder não apenas quanto o estado atraiu de investimentos, mas quais benefícios concretos ficaram para as populações locais. “A discussão tende a sair do campo da celebração dos anúncios bilionários e entrar em temas mais sensíveis, como impacto ambiental, qualificação profissional, acesso à água, conflitos territoriais e distribuição dos ganhos econômicos”, avalia.
Outro ponto que deve aparecer com força na disputa política é a infraestrutura necessária para sustentar a expansão energética. Projetos de hidrogênio verde, data centers e eólicas offshore exigem reforço da transmissão elétrica, disponibilidade hídrica e capacidade logística em escala muito superior à atual.
Ao mesmo tempo, parte do setor empresarial pressiona por maior velocidade no licenciamento ambiental e na regulamentação das eólicas offshore, consideradas fundamentais para consolidar o Ceará como hub energético internacional. Em dezembro de 2025, porém, o Ibama arquivou 11 processos de licenciamento de parques offshore no estado, reacendendo o debate sobre segurança regulatória e impactos ambientais.
No centro desse debate está uma questão que ultrapassa o Ceará e se espalha pelo Nordeste, que é como transformar a transição energética em política de desenvolvimento regional e não apenas em plataforma de exportação de energia e commodities verdes.
