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24 de setembro de 2026 11:15

Como provedores regionais reescrevem o mapa digital do Nordeste

Como provedores regionais reescrevem o mapa digital do Nordeste

Presidente da Abrint, Breno Vale, analisa o salto de conectividade do Ceará, o protagonismo das operadoras locais na interiorização da rede e os riscos de uma nova exclusão digital com a chegada da inteligência artificial
Foto: Reprodução/Instagram

Por muito tempo, falar de conectividade no Nordeste era falar de ausência, mas hoje, segundo Breno Vale, presidente da Associação Brasileira de Provedores de Internet e Telecomunicações (Abrint), essa lógica se inverteu – pelo menos no Ceará. “Já não podemos tratá-lo simplesmente como um estado que precisa ser conectado. Ele começa a se posicionar como uma das principais infraestruturas digitais do Brasil”, afirma.

Os números sustentam essa avaliação: em julho de 2026, o Ceará somava cerca de 1,95 milhão de acessos de banda larga fixa, apoiados por uma espinha dorsal de quase 6 mil quilômetros de fibra óptica (o Cinturão Digital), que já alcança mais de 130 municípios. Fortaleza, além disso, consolidou-se como polo de conectividade internacional, concentrando cabos submarinos e data centers que colocam a capital cearense em rota direta com o resto do mundo. O 5G, hoje, está presente em todos os municípios do estado.

Mas presença não é sinônimo de plenitude, Breno pondera que “é importante dizer que presença municipal não significa cobertura integral de todo o território do município”. A pesquisa TIC Domicílios 2025 escancara essa distância: 84% dos lares nordestinos têm acesso à internet, mas, entre os conectados, 26% ainda não contam com banda larga fixa,  sinal de que qualidade e capacidade seguem desiguais, especialmente no interior e entre a população de menor renda.

O protagonismo dos pequenos

Se o Ceará avançou, parte relevante do crédito, segundo o presidente da Abrint, pertence aos provedores regionais. Enquanto as grandes operadoras historicamente priorizavam mercados de maior densidade populacional, foram as empresas locais que levaram fibra “rua por rua e município por município” a cidades fora do radar da grande capital. O fenômeno deixou de ser marginal: dados da Anatel mostram que 7,3 mil prestadoras de pequeno porte respondem por 64% de todo o investimento em banda larga fixa no país.

“Não foi apenas uma competição de preços”, explica Vale. “Esses empresários transformaram capital local em infraestrutura. Compraram equipamentos, lançaram fibra, contrataram técnicos e instaladores e reinvestiram o resultado dentro das próprias regiões.” Em muitos municípios, resume, o provedor regional não chegou depois da conectividade, mas foi ele foi quem a tornou economicamente possível.

Ampliar essa rede para as áreas mais remotas, porém, esbarra em obstáculos que vão muito além da tecnologia. O primeiro é econômico: quanto menor a densidade populacional, maior o investimento por cliente atendido, o que muitas vezes inviabiliza a conta sem financiamento ou compartilhamento de infraestrutura. O segundo é físico, já que a fibra depende, em grande parte, de postes das distribuidoras de energia, e o Brasil ainda não resolveu de forma definitiva o compartilhamento dessa estrutura. “É preciso muito cuidado para que a reorganização não provoque um aumento de custos para os provedores, porque essa conta inevitavelmente chegará ao consumidor”, alerta o presidente da Abrint.

Somam-se a isso o licenciamento municipal, o direito de passagem, travessias de rodovias e a necessidade de rotas redundantes. Afinal, avalia Vale, “uma rede moderna não pode depender de uma única fibra ou de um único caminho”. Com a sociedade cada vez mais dependente da internet, a resiliência virou palavra de ordem: uma falha de energia ou um rompimento de fibra hoje pode paralisar simultaneamente saúde, educação, empresas e serviços públicos.

De provedor de internet a empresa de serviços digitais

O setor, segundo o presidente da Abrint, vive uma transição de modelo de negócio. Se por anos o investimento prioritário foi expansão de cobertura, agora ganham espaço capacidade, redundância, cibersegurança, cloud, IoT e melhoria de Wi-Fi residencial. “O provedor está deixando de ser apenas a empresa que entrega uma conexão de internet para se transformar em uma empresa regional de serviços digitais”, resume – movimento que a própria Anatel já identifica como deslocamento da competição da simples conectividade para ecossistemas integrados de rede, dados e serviços.

A leitura de Vale não se limita ao Ceará. Entre 2024 e 2025, o Índice Brasileiro de Conectividade da Anatel para o Nordeste subiu de 44,83 para 48,05 pontos, com 81,9% dos municípios registrando evolução. Iniciativas recentes reforçam essa integração regional: em junho, foram anunciados R$ 73,8 milhões do Fust para uma rede de alta capacidade entre Recife e Fortaleza, beneficiando 214 municípios do Ceará, Pernambuco e Paraíba. Ainda assim, o presidente da Abrint é categórico: “O Nordeste não pode ser analisado como um único mercado”. Capitais e polos regionais competem em pé de igualdade com qualquer capital do país, enquanto municípios menores e áreas rurais seguem dependendo de escala econômica que o mercado, sozinho, não entrega.

Para Vale, o impacto da chegada da internet de qualidade vai muito além do acesso em si. “Quando uma cidade recebe conectividade de qualidade, não estamos apenas instalando internet. Estamos colocando naquela cidade uma infraestrutura produtiva”, diz. Pequenos negócios passam a vender on-line e acessar fornecedores de qualquer lugar do país, escolas ganham conteúdo digital, postos de saúde adotam telemedicina e produtores rurais incorporam sensores e agricultura de precisão. Os próprios provedores, por empregarem mão de obra local e reinvestirem na região, ajudam a manter a renda circulando na economia regional, um efeito que, para ele, o país ainda mede pouco e deveria acompanhar de forma sistemática.

O risco de uma nova exclusão: a corrida da IA

O avanço mais recente, no entanto, traz um alerta. Fortaleza já reúne ao menos 16 cabos submarinos internacionais e mais de dez data centers em operação, com o Cinturão Digital ampliando sua capacidade de 200 Gbps para 400 Gbps, e o BNDES aprovou R$ 233 milhões para expansão de um data center na capital cearense, que deve chegar a 20 MW até 2029. Mas conectividade internacional, avisa Vale, não basta mais. “Meu receio é criarmos uma nova desigualdade digital: superarmos a divisão entre quem tem e quem não tem internet e entrarmos em outra divisão entre quem tem acesso à capacidade computacional necessária para utilizar IA e quem não tem.”

Para evitar esse cenário, o presidente da Abrint defende uso efetivo de instrumentos já existentes, como o Fust, além de facilitar crédito para pequenos e médios provedores, resolver o compartilhamento de postes e simplificar o licenciamento. Nas regiões de menor atratividade econômica, resume, “políticas públicas devem funcionar como catalisadoras do investimento privado, e não tentar substituí-lo”. O desafio dos próximos anos, conclui, não é mais provar que a internet chega, mas transformar essa conectividade em produtividade, digitalizando pequenos negócios e escolas e permitindo que empresas nasçam no interior do Nordeste para competir com qualquer lugar do mundo.

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