Jornalismo econômico para a inovação no Nordeste -
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5 de outubro de 2026 12:00

Nordeste precisa ampliar investimentos em infraestrutura para destravar novos negócios

Nordeste precisa ampliar investimentos em infraestrutura para destravar novos negócios

Dados da CNI mostram distância entre o volume investido e a necessidade do país; especialistas apontam efeitos sobre PIB, logística e competitividade
Foto: Divulgação

O déficit histórico de infraestrutura ainda impõe obstáculos ao crescimento econômico do Nordeste, afetando desde a circulação de mercadorias e a logística até a capacidade de atrair novos negócios e sustentar a expansão de setores produtivos. O cenário é parte de um problema nacional apontado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), que defende a ampliação dos investimentos para reduzir o estoque de infraestrutura que o país deixou de construir nas últimas décadas.

Em 2024, o Brasil investiu R$ 266,8 bilhões em infraestrutura, sendo R$ 188,1 bilhões do setor privado e R$ 78,6 bilhões do setor público. No Nordeste, os financiamentos do Banco do Nordeste (BNB) destinados à infraestrutura recuaram de R$ 12,6 bilhões, em 2023, para R$ 7,6 bilhões no ano seguinte. Diante desse cenário, especialistas apontam os efeitos da falta de investimentos sobre a atividade econômica e discutem o papel de concessões, Parcerias Público-Privadas (PPPs) e recursos privados para ampliar a capacidade de investimento.

O economista Chico Rosário destaca que os investimentos em infraestrutura têm efeito multiplicador sobre a economia, movimentando uma cadeia que envolve desde estudos, projetos e licitações até construtoras, fornecedores, serviços especializados e desenvolvimento de novas tecnologias. Na avaliação dele, esse movimento gera impacto no Produto Interno Bruto (PIB) no curto e médio prazo e, posteriormente, cria condições para o surgimento de novas empresas e atividades produtivas. Como exemplo, cita a infraestrutura rodoviária de Alagoas e o papel que ela desempenhou na consolidação de Arapiraca como centro de distribuição e atração de novos negócios.

“Infraestrutura é um motor do PIB. Quando você faz um investimento, não está apenas construindo uma estrada, uma ferrovia ou um hospital. Você mobiliza toda uma cadeia econômica e, depois, cria as condições para o surgimento de novas empresas, novos negócios e novas tecnologias”, afirma Rosário. Para ele, projetos como a Transnordestina podem ampliar esse efeito ao reduzir custos de transporte e estimular atividades ligadas à logística, armazenagem, comércio exterior e indústria em diferentes pontos do interior nordestino.

Rosário ressalta ainda que o desafio se torna maior diante da diversificação da economia nordestina. Indústrias automobilística e farmacêutica, agronegócio e serviços tecnológicos demandam diferentes tipos de infraestrutura, desde ferrovias e estradas até conectividade digital, energia e formação de mão de obra. Segundo o economista, a combinação entre restrições fiscais do poder público e o custo elevado do capital privado dificulta a ampliação desses investimentos. Nesse cenário, ele vê as PPPs e concessões como mecanismos cada vez mais relevantes para complementar os recursos públicos, com o Estado atuando na estruturação dos projetos e na criação das condições para a participação privada.

Foto: Divulgação

Além do efeito imediato sobre a atividade econômica, a infraestrutura também determina as condições de competitividade e de atração de investimentos no longo prazo. É nesse ponto que o economista Marcus Sarmento destaca a necessidade de uma infraestrutura integrada às estratégias de desenvolvimento regional.

Sarmento avalia que a insuficiência de infraestrutura impõe custos sistêmicos que reduzem a competitividade dos estados nordestinos, mesmo quando as empresas apresentam níveis de eficiência semelhantes aos de outras regiões. Segundo ele, problemas em rodovias, ferrovias, portos, saneamento, conectividade digital e segurança hídrica encarecem as cadeias produtivas e também dificultam a atração de novos investimentos. Nesse cenário, a deficiência de infraestrutura pode criar um ciclo de desigualdade territorial, em que regiões mais estruturadas atraem mais empresas e, consequentemente, novos investimentos em infraestrutura.

“Infraestrutura não deve ser vista apenas como redução de custos, mas como instrumento de transformação produtiva. Estradas, ferrovias, energia, saneamento, conectividade e recursos hídricos precisam aumentar a produtividade e, ao mesmo tempo, integrar o território e criar encadeamentos econômicos”, frisa Marcus Sarmento. Para o economista, esse desafio ganha relevância diante das novas oportunidades do Nordeste, especialmente na expansão das energias renováveis, que precisam ser acompanhadas por investimentos em transmissão, armazenamento, logística, formação profissional e indústria fornecedora para que uma parcela maior do valor gerado permaneça na própria região.

Nesse contexto, Sarmento aponta concessões e PPPs como mecanismos importantes para ampliar a capacidade de investimento, sobretudo diante das limitações fiscais dos governos. Ele ressalta, porém, que esses instrumentos não eliminam o custo da infraestrutura nem substituem o planejamento público. A definição dos projetos deve considerar não apenas o retorno financeiro, mas também ganhos de produtividade, integração territorial, geração de empregos qualificados, redução das desigualdades e capacidade de estimular novos investimentos. “O capital privado é indispensável porque a escala do investimento necessário é muito superior à capacidade fiscal dos governos. Mas concessões e PPPs não substituem planejamento público”, destaca.

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